O contraste entre a violação do direito internacional pela ação dos Estados Unidos e o sofrimento estrutural, prolongado e silenciado do povo venezuelano sob um regime autoritário, evidenciando a seletividade moral do discurso internacional.
A ideia central não é justificar a ação norte-americana, mas denunciar a hipocrisia de um debate que protege normas abstratas enquanto relativiza tragédias humanas concretas.
Todos nós temos acompanhado, com perplexidade e inquietação, os desdobramentos recentes da ação direta dos Estados Unidos em território venezuelano, culminando na invasão militar, no ataques a alvos estratégicos e na captura do presidente Nicolás Maduro, que foi retirado do país e conduzido a uma prisão em solo norte-americano. A reação internacional foi imediata e previsível: a maioria das análises concentrou-se na violação frontal da soberania estatal, do princípio da não intervenção e das normas estruturantes do direito internacional público.
E, sob esse aspecto estritamente jurídico-formal, é impossível negar que tais violações existiram.
Entretanto, restringir a reflexão a esse plano, confortável, abstrato e seletivo, é, no mínimo, insuficiente. A questão que se impõe é mais ampla, mais incômoda e mais humana: o que o povo venezuelano viveu, por décadas, sob um regime autoritário que sistematicamente destruiu instituições, silenciou dissensos e normalizou o sofrimento coletivo?
A cobertura midiática global, em grande medida, demonstra uma curiosa, e por vezes hipócrita, preferência por discutir a ruptura das normas internacionais sem ouvir aqueles que foram cotidianamente esmagados pela ruptura interna dos direitos fundamentais. Pouco se pergunta às mães que enterraram filhos por falta de medicamentos. Pouco se escuta os milhões de exilados forçados. Pouco se fala da repressão política, da fome institucionalizada, da miséria planejada como instrumento de poder.
Não se trata de negar a gravidade da ação norte-americana. Trata-se de recusar a ideia de que a violação externa da soberania seja mais escandalosa do que a violação interna, prolongada e estrutural da dignidade humana.
O governo Maduro, assim como o de seu antecessor, não apenas falhou em dialogar com seu povo: substituiu o diálogo pela coerção, a legalidade pela aparência de legalidade, o Estado pela captura do Estado. O discurso do diálogo internacional sempre existiu, mas esvaziado de substância, enquanto internamente se consolidava um regime impermeável à crítica, hostil à alternância de poder e indiferente ao sofrimento social.
Há, ainda, um aspecto deliberadamente silenciado e que sua reflexão corretamente resgata: a dimensão transnacional do dano produzido por esse regime. A Venezuela deixou de ser apenas um drama interno para tornar-se um nó estratégico no tráfico internacional de drogas e armas, com impactos diretos sobre a violência urbana, a desestruturação social e a morte de milhares de pessoas em diversos países. A droga não é uma abstração geopolítica; ela destrói corpos, famílias, comunidades. A arma não é um símbolo ideológico; ela mata, mutila e perpetua ciclos de barbárie.
Ignorar essa realidade é reduzir o debate a uma estética jurídica confortável, mas moralmente vazia. A ponderação entre a vida do povo venezuelano e a vida de outros povos afetados pela expansão do narcotráfico e do comércio ilegal de armas não é menor, nem pode ser tratada como irrelevante, ainda que não autorize, por si só, ações militares unilaterais.
O cenário ideal, o bom, o belo, o juridicamente elegante, teria sido uma solução construída pelo diálogo, pela mediação internacional efetiva e por mecanismos multilaterais robustos. Mas essa possibilidade foi sistematicamente bloqueada por um governo que não reconhecia legitimidade no dissenso, nem interna nem externamente. Quando o diálogo é reiteradamente negado, o direito internacional entra em sua zona mais perigosa: aquela em que normas colidem com realidades humanas intoleráveis.
Assim, o contraste que se impõe não é simples nem confortável. De um lado, uma potência que viola regras internacionais e cria um precedente extremamente perigoso. De outro, um regime ditatorial que, por décadas, produziu sofrimento em massa, corroeu instituições, alimentou economias criminosas e exportou violência. Reduzir esse conflito a heróis e vilões é intelectualmente desonesto.
O que se exige, neste momento, é uma reflexão madura, corajosa e desideologizada:
o direito internacional não pode ser um escudo para a perpetuação da barbárie, nem a força pode ser naturalizada como instrumento ordinário de correção moral do mundo. Quando ambas as coisas falham simultaneamente, o que emerge é uma tragédia jurídica, política e humana.
E talvez o maior escândalo não seja apenas a ação militar em si, mas o fato de que, mais uma vez, o povo venezuelano corre o risco de permanecer invisível, instrumentalizado por narrativas, enquanto suas dores reais continuam sendo tratadas como detalhe colateral de um grande jogo geopolítico.
Essa é a reflexão que se impõe. Sem slogans. Sem absolvições fáceis. Sem silêncios convenientes.
